segunda-feira, 2 de julho de 2018

https://roadiecrew.com.br/10-discos-para-um-tempo-de-odio-ou-trilha-sonora-para-um-passeio-filosofico/


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Em 2001 vivíamos o auge da primeira formação do Psychotic Eyes. Nossa primeira demo, lançada no ano anterior, só havia recebido elogios de toda a imprensa especializada. Éramos convidados para festivais e havíamos dividido palcos com as melhores bandas do metal brasileiro da época. Num dos nossos shows, tocamos um cover do Kreator acompanhados por ninguém menos que o ex-guitarrista da própria banda, Frank Godzik.
Estávamos muito empolgados, e havíamos recebido um convite de uma gravadora para gravarmos o nosso primeiro álbum, que seria lançado por eles. Nos pediram uma demo com algumas faixas.
Havíamos bolado, coletivamente, numa conversa entre os integrantes, uma história conceitual maluca, que se passava no Brasil colonial, envolvendo assassinatos, conspiração de seitas satânicas, rituais de possessão baseados em telepatia e inteligência artificial. A criatividade dos membros da banda me impressiona até hoje.
Entramos no estúdio para registrar três faixas: "The Humachine", depois regravada no nosso segundo álbum “I Only Smile Behind the Mask”, “Sold to Soul”, com aquele que considero o melhor solo de guitarra da banda até hoje, executado pelo Reinaldo Rodriguez, e “The Price”, com o melhor solo de guitarra que eu havia gravado até então. Hoje tenho outros preferidos, principalmente aqueles que gravei no segundo álbum, mas o dessa faixa ainda me orgulha muito.
Durante as gravações surgiu uma pequena peça instrumental, que inventei no estúdio, e a ideia de gravar um cover para “Crystal Mountain”, do Death, que já tocávamos ao vivo. Chuck Schuldiner havia morrido recentemente. Estávamos todos sentidos e tristes, pois o Death era, junto com Slayer e Kreator, a maior das nossas referências musicais naquele momento. Até alterei algumas partes da letra para que elas soassem como homenagem.
Depois da gravação, aquela formação tão coesa se separou. Fui morar em Brasília e, quando voltei, eu e o Alexandre Dua Tamarossi (bateria) reformulamos a banda.
Nunca lançamos aquela demo. Até hoje.
A vida não cansa de nos surpreender. Depois que o Alexandre saiu da banda, ficamos somente eu e o Douglas Gatuso (baixo), parados e procurando baterista. Nesses anos todos, surgiu a ideia de gravar um álbum acústico, “Olhos Vermelhos”, agora em fase final de produção. Achávamos que seria fácil.
Nada.
A gravação do acústico foi dos desafios mais difíceis que já enfrentei como músico. É quase impossível transpor a agressividade do death metal para o formato de dois violões sem soar uma caricatura ou uma brincadeira. Além disso, meu estilo de tocar guitarra é baseado em palhetadas fortes, agressivas, muito movimento de dedos e distorção pesada. Essa maneira de tocar, aplicada num violão acústico, com microfones em volta, transforma tudo num caos. Qualquer barulho causado pela execução da música, que seria inaudível numa gravação de guitarra, fica evidente no formato acústico, pois é captado pelos microfones.
A mixagem foi outra epopeia. Simplesmente estávamos fazendo algo inédito, para o qual não há referências. Não tínhamos como saber o caminho, nem havíamos construído uma imagem do resultado que queríamos. Por isso, foram literalmente meses de tentativa e erro até chegarmos a um resultado satisfatório.
Nesse meio tempo, a vida pessoal dos músicos e da equipe do estúdio sofreu todo tipo de reviravoltas, dificuldades e vários fatores nos impediam de ter uma agenda juntos. Como nenhum de nós vive financeiramente da música, e muito menos do Psychotic Eyes, tínhamos que priorizar as obrigações profissionais, familiares e pessoais, o que atrasou ainda mais o processo de gravação e mixagem.
Mas a vida nos traz também surpresas. Reencontrei o ex-guitarrista Reinaldo Rodriguez, hoje ator e dublador renomado, e conversamos com nostalgia, lembrando o tempo da primeira formação da banda. Em comum, temos o orgulho das composições que fizemos juntos, em especial aquelas gravadas na ainda inédita segunda demo.
Com os atrasos da produção do disco acústico, resolvi lançar esse material. As músicas ainda me emocionam como naquela época. Quase vinte anos se passaram mas elas soam vivas, renovação do metal brasileiro. Acho que aquele estilo de tocar ninguém até então tinha explorado. Há elementos naquelas composições que nem mesmo o Psychotic Eyes explorou depois, infelizmente.
Espero que gostem de ouvir essas músicas. Em especial, nossa homenagem ao Chuck é ainda mais importante hoje, neste mundo intolerante, em que o metal perdeu espaço, em que a criatividade e a sensibilidade artística têm cada vez menos espaço. Chuck faz mais falta hoje do que na época em que gravamos a faixa. Lamento, entretanto, que sua importância como músico jamais tenha sido devidamente reconhecida. Ainda que hoje ele seja muito respeitado por quem conhece seu legado, sua música não teve sucessores, não deixou influências, não é valorizada. O mundo perdeu o interesse pela música de qualidade, pesada, que emocione, que tenha letras provocativas que façam pensar, abraçando as sonoridades fáceis de letras vazias. Depois dele, “não apareceu mais ninguém”. “Inside Crystal mountain, we’ll never forget your voice”

domingo, 27 de maio de 2018

Apenas 4 estados aumentaram o ICMS sobre os combustíveis recentemente. Minas Gerais aumentou a alíquota de 29% para 31%, um aumento de apenas 3%. Em janeiro deste ano.

O governo federal aumentou a CIDE. Em julho do ano passado.

Mas agora a grande imprensa (Globo, Folha e Estadão) quer convencer que a causa do aumento dos preços do combustível (nesta semana) é da carga tributária. Usam contas, tabelas e índices que fariam corar um primeiro anista de matemática, de tão elementares e falsas.

Isso não é coincidência. Tem-se denunciado a hipocrisia de se elogiar a política de preços baseada na desregulamentação e na ausência de intervenção, característica da administração da Petrobras no governo Dilma (o que rendeu até processos contra a presidente, acusada de "quebrar a empresa" mantendo os preços baixos).

O nome disso é canalhice. Mentem contra o povo, descaradamente.

A impressão que tenho é que o discurso "é culpa dos impostos" cola fácil, pois todo mundo acredita facilmente que qualquer preço alto é culpa dos impostos, pois poucos sabem medir a carga tributária e quase ninguém tem noção de como um preço é composto. A frase soa bonita e parece sempre verdadeira, do mesmo jeito que outras afirmações vazias como "o juiz roubou contra o meu time", "todo político é ladrão" ou "filme brasileiro é uma merda".

Além disso, me parece que a elite não aposta mais no discurso de "é culpa do PT". Embora isso seja em parte verdadeiro, pois o presente é sempre resultado do passado, tanto que posso culpar a escravidão pelo preconceito atual, esse discurso de ódio alienante é algo com data de validade, que evidencia a polarização política e, até certo ponto, força a uma reflexão, pois, "se é culpa do PT", porque era diferente na época do Lula?

Culpar os impostos é mais fácil, embora vergonhosamente falso. Lembram quando o preço do tomate subiu? Culparam os impostos, mas esqueceram de informar que tomate não paga imposto, como item essencial da cesta básica. Lembram o discurso de que automóveis eram caros por causa da carga tributária? Dêem uma olhada e vejam o percentual da tributação, comparado com o lucro da montadora nacional e com a remessa de lucros para a matriz no exterior.

Ainda que fosse verdadeiro, é justo financiar o transporte individual, reduzindo a tributação da gasolina, e com isso reduzir as receitas do estado para as demais atividades?

Nem é justo nem é possível: os estados e municípios estão quebrados e o governo federal está viciado em ajuste fiscal. Os que defendem essa mentira o fazem somente para combater aqueles que evidenciaram que "estado mínimo" é incompatível com justiça social. Se queremos desenvolvimento, é necessária intervenção do estado - e da sociedade - na economia. Sem isso seremos escravos do lucro, e só dele.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Filosofia para crianças

Há um tal "estudo" correndo por aí, assinado por um pesquisador do Ipea, dizendo que estudar filosofia no ensino médio prejudica o aprendizado de matemática. Primeiro, não é porque o sujeito é pesquisador do Ipea que é honesto. O cidadão em questão é apoiador do Bolsonaro e do "escola sem partido". Isso, claro, não invalida, por si só, o argumento. Mas demonstra a visão de mundo de quem quer desvalorizar as ciências humanas.

Escrevi o texto abaixo, em resposta ao comentário de uma professora de direito que levou o argumento a sério, entendendo que filosofia é algo complexo demais para ser ensinado no ensino médio, e que deveríamos focar em matemática, línguas e ciências. Bem na linha da reforma proposta pelo governo golpista.

"Tenho absoluta certeza que você não menospreza nossas queridas ciências humanas, a qualidade de seus estudos e artigos comprova a importância que você atribui à filosofia e à sociologia. Ocorre que a discussão é enviesada e, pelo menos para esses autores do citado artigo, falta muita honestidade intelectual. Não conheço nenhum país desenvolvido que não tenha Filosofia na grade. É um conhecimento absolutamente essencial para compreender o mundo e as outras disciplinas. Era conteúdo obrigatório no Brasil até a reforma da ditadura, que a subsittuiu por "educação moral e cívica", que nenhum hipócrita tinha coragem de dizer que prejudicava as notas em matemática. Filosofia é um modo tão básico de pensar que é acessível até às crianças, veja a coleção "Filosofinhos". Para adolescentes, há o best seller "O mundo de sofia". "O pequeno príncipe" é um livro de filosofia. Aliás, valorizam tanto a matemática, mas o jeito que ela é estudado no Brasil é um horror, destinado a formar trabalhadores disciplinados capaz de operar uma linha de montagem. Não há educação para raciocínio matemático, só repetição de longas listas de exercícios inúteis e desvinculados de problemas reais do mundo. Treina-se durante anos a fórmula de báskara, que não serve para absolutamente nada, enquanto não se sabe ler uma estatística ou calcular juros. Esse tipo de ensino defendido pelo "escola sem partido" visa formar trabalhadores alienados, não cidadãos pensantes, capazes de refletir sobre o mundo. Nem preciso citar nenhum autor "de esquerda", leia o americano liberal John Dewey, sobre a importância da educação não só para o trabalho, mas para a cidadania, com pensamento crítico. Um grande abraço e parabéns por fomentar a discussão".

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Eu sempre achei que metal era música clássica tocada em instrumentos populares. Na verdade, ao ver esse vídeo, vejo que há uma barreira intransponível entre a música clássica/orquestrada, que usa um maestro para dar o tempo, e a música popular de origem africana, que usa percussão, como é o caso do rock/metal, jazz e pop. Talvez a grandiosidade do metal seja o uso da harmonia e contrapontos clássicos em instrumentos populares, o que exige muito mais do músico, pois a sincronia rítmica tem que ser mais acurada do que numa orquestra, e a variação harmônica e melódica mais complexa do que no usual da música popular. Tudo o que fazemos no metal contribui para exagerar o ataque das notas: distorção e palhetada na guitarra, baixo pulsante, bateria tocada sempre no extremo forte, com baquetas de ponta dura. O jazz vai pelo caminho contrário, suavizando o ataque: guitarras limpas tocadas com os dedos, baixo fretless, bateria com escovinha. É uma forma de usar instrumentos populares num contexto mais sofisticado. Novamente, o metal venceu!

(aguardando os haters que vão me xingar porque relacionei o metal à música africana).

https://www.youtube.com/watch?v=rEbUNDW9bDA

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

"A lógica que rege o mercado é que, com salários em aceleração, o consumo deve aquecer, levar ao aumento dos preços e, por consequência, dos juros - mecanismo usado pelos bancos centrais para controlar a inflação."

Socorro. Esse "mercado" não entende bosta nenhuma de economia? Não leram nem o Davi Ricardo pelo jeito. Achar que salário alto alimenta a inflação já era bobagem antes do Marc escrever "salário, preço e lucro", em que mostra, didaticamente, a falácia do raciocínio.

Aliás, nem precisa pensar muito. Basta ter vivido no Brasil, país de salários baixos e inflação alta.

O que me surpreende é que repetem isso e ainda ganham rios de dinheiro fazendo o povo pensar que isso faz algum sentido.

http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42964359