sexta-feira, 20 de abril de 2018

Filosofia para crianças

Há um tal "estudo" correndo por aí, assinado por um pesquisador do Ipea, dizendo que estudar filosofia no ensino médio prejudica o aprendizado de matemática. Primeiro, não é porque o sujeito é pesquisador do Ipea que é honesto. O cidadão em questão é apoiador do Bolsonaro e do "escola sem partido". Isso, claro, não invalida, por si só, o argumento. Mas demonstra a visão de mundo de quem quer desvalorizar as ciências humanas.

Escrevi o texto abaixo, em resposta ao comentário de uma professora de direito que levou o argumento a sério, entendendo que filosofia é algo complexo demais para ser ensinado no ensino médio, e que deveríamos focar em matemática, línguas e ciências. Bem na linha da reforma proposta pelo governo golpista.

"Tenho absoluta certeza que você não menospreza nossas queridas ciências humanas, a qualidade de seus estudos e artigos comprova a importância que você atribui à filosofia e à sociologia. Ocorre que a discussão é enviesada e, pelo menos para esses autores do citado artigo, falta muita honestidade intelectual. Não conheço nenhum país desenvolvido que não tenha Filosofia na grade. É um conhecimento absolutamente essencial para compreender o mundo e as outras disciplinas. Era conteúdo obrigatório no Brasil até a reforma da ditadura, que a subsittuiu por "educação moral e cívica", que nenhum hipócrita tinha coragem de dizer que prejudicava as notas em matemática. Filosofia é um modo tão básico de pensar que é acessível até às crianças, veja a coleção "Filosofinhos". Para adolescentes, há o best seller "O mundo de sofia". "O pequeno príncipe" é um livro de filosofia. Aliás, valorizam tanto a matemática, mas o jeito que ela é estudado no Brasil é um horror, destinado a formar trabalhadores disciplinados capaz de operar uma linha de montagem. Não há educação para raciocínio matemático, só repetição de longas listas de exercícios inúteis e desvinculados de problemas reais do mundo. Treina-se durante anos a fórmula de báskara, que não serve para absolutamente nada, enquanto não se sabe ler uma estatística ou calcular juros. Esse tipo de ensino defendido pelo "escola sem partido" visa formar trabalhadores alienados, não cidadãos pensantes, capazes de refletir sobre o mundo. Nem preciso citar nenhum autor "de esquerda", leia o americano liberal John Dewey, sobre a importância da educação não só para o trabalho, mas para a cidadania, com pensamento crítico. Um grande abraço e parabéns por fomentar a discussão".