quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Quem, como eu, estudou direito no século passado, se acostumou a fazer piadinhas com a norma fundamental de Hans Kelsen. Poucos compreenderam o alcance dessa ideia. Ela chama atenção para o fato de que qualquer sistema jurídico é fundado na pressuposição, ou hipótese, de que devemos obedecê-lo. A norma fundamental é "devo obedecer a constituição e as leis". 2016 mostrou que para a alta cúpula dos poderes brasileiros, a norma fundamental é outra: "posso fazer o que eu quiser, porque eu posso". Esta semana só reforçou essa sensação, mas ela vem de muito antes. Quando o STF mandou prender um senador. Quando disse que a presunção de inocência não existe, que a inviolabilidade do domicílio não existe. Quando um juiz grampeou a presidente da república e divulgou na imprensa. Quando outro juiz impediu a nomeação de um ministro fundado nessa gravação ilegal. Quando o MP, órgão teoricamente destinado a proteger a constituição, propõe usar prova ilícita e restringir o habeas corpus. Quando o congresso depôs a presidente que jamais cometeu um crime. Quem tem a resposta para onde vamos parar? Outros dois filósofos, mais antigos que Kelsen: Hobbes e Marx. Leviatã e 18 de brumário, duas leituras do passado para entender o futuro do Brasil.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Divagações sobre o prêmio Nobel concedido ao Bob Dylan

1) Gosto muito da obra do Dylan, mas existem poetas letristas melhores. David Bowie, Paul McCartney e Neal Peart mereciam um prêmio Nobel também. Bowie não ganha porque já morreu, mas os outros contem com meu apoio, extensível ao Warrell Dane, Blaze Bayley, Geoff Tate, Dave Mustaine, Jon Anderson, Glenn Hughes e Daniel Gildenlow.

2) Achei corajosa e surpreendente a decisão do comitê do Nobel de considerar letras de música como forma de literatura. Isso pode ser muito ruim, pois num mundo em que o hábito de ler está cada vez menos frequente e valorizado, muitos vão confundir as duas formas de arte e deixar de ler livros. A experiência de se emocionar com uma letra de música é maravilhosa, e eu valorizo muito isso, como músico, compositor e consumidor compulsivo de música que sou. Mas literatura é outra coisa: sou eu e o texto. O leitor que dá o ritmo, a velocidade, a interpretação, não o cantor. Essa experiência transcedental não tem paralelo. É pela literatura que compartilhamos experiências alheias e entramos na mente de outra pessoa. Não há outra forma de fazer isso.

3) Já que abriram as portas para um letrista, nada impede que outras formas de arte recebam o prêmio Nobel. Assim, para 2018 meu candidato é Alan Moore, roteirista de quadrinhos. Os irmãos Nolan (Amnésia) e as irmãs Wachovsky (Matrix) merecem o prêmio também pelos roteiros de filmes que já escreveram.

4) Percebi que nenhum dos meus autores favoritos jamais ganhou o prêmio Nobel de literatura. Então foda-se o prêmio, que já foi concedido a escritores medíocres (o cara do Dr. Jivago, por exemplo) e gente detestável (Sartre, que só escreveu um conto que presta, enquanto quem merecia muito mais era sua esposa Simone).

5) Eu não gostei de nenhum dos premiados recentes, salvo a Svletana sei lá o quê, que escreveu dois livrinhos muito interessantes e bonitos, que ainda não li. A premiação da ucraniana também foi criticada, porque ela não seria escritora, mas jornalista. Aí já acho exagerado. Lançou livro é escritor.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Fico impressionado ao ler comentários e ver que existe muita gente que acredita naquela bobagem de "foro de SP" e chama o PT de comunista. Esse pensamento ofende os petistas e os comunistas ao mesmo tempo. Ultimamente defender direitos mínimos virou "coisa de comunista", tipo dizer que existe cultura do estupro, defender o estado laico, respeito aos direitos humanos, programas de assistência social, legislação trabalhista, que são coisas típicas de uma sociedade capitalista. Deixa eu tentar explicar: nós comunistas defendemos o fim da exploração do trabalho, da mais valia, do Estado e da propriedade privada dos meios de produção. Sim, é muito mais grave do que qualquer programa, ideia ou projeto do PT, que não defende nada disso

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A finada constituição de 1988 exige o trânsito em julgado para três coisas: 1) considerar alguém culpado (art. 5, LVII); 2) tirar alguém do cargo de juiz (vitaliciedade, art.95, I); 3) o estado pagar alguma coisa (regime dos precatórios, art. 100 e seus parágrafos). Como o STF decidiu ontem que para prender alguém não é necessário o trânsito em julgado, creio que os demais dispositivos também precisem ser (re)interpretados. Se a liberdade é um bem fundamental do ser humano, e lançá-lo à prisão é algo excepcional, mas que pode ser feito sem maiores constrangimentos após uma decisão de segundo grau, o que o digam bens jurídicos menores, como um cargo no judiciário ou um pagamento em dinheiro. Além disso, se o juiz está sendo processado, é porque é bandido, então melhor, até pra ele, que ele perca o cargo, situação menos grave que ser preso. Quanto aos precatórios, todos sabemos que o dinheiro público é um bem disponível, então nada mais natural do que pagar logo a dívida, pouco importando o trânsito em julgado. No final, os recebedores estarão de boa-fé e nada precisarão devolver se perderem a ação. Só me resta uma dúvida: se o julgamento de segundo grau é tão importante que autoriza mandar alguém pra prisão, pra que servem o STF e o STJ?

terça-feira, 4 de outubro de 2016

4 de outubro será uma data sempre lembrada pelo sórdido golpe de estado urgido pelo papa comunista Gregório 13. Na calada da noite esse vilão surrupiou dez dias de toda a cristandade, impedindo que 3,65% da população comemorassem seus aniversários. Sempre lembraremos esse segundo golpe brutal em Júlio César. Que ele jamais se repita: bissextos não passarão!

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Em 1947 a editora Globo publicou a primeira tradução brasileira do livro "Les liaisons dangereuses", de Chordero de Lacros, um dos clássicos franceses, cuja trama ajudou a criar o clima contra a nobreza que depois desaguaria na Revolução Francesa. O tradutor era o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Uma das personagens era a PRESIDENTA DE TOURVEL. 69 anos depois, a mesma empresa que detinha aquela editora, agora aliada a um exército de parvos, decidiram que a palavra "presidenta" não existe, embora conste do dicionário, e que seria invenção de gente inculta. Ainda mais lamentável que uma jurista, tão mineira quanto Drummond mas nada poeta, se considere e se demonstre indigna da língua que usa, manifestando mesquinhez e insignificância política, demonstrando a sua indignidade para o título. Prefere o masculino ou o neutro, apropriado, pois na política quem é neutro é sempre a favor do opressor.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Discutir esse projeto idiota "Escola sem Partido" é totalmente inútil, seja para a esquerda seja para a direita. O problema da educação brasileira não é conteúdo, pois este é esquecido pelos alunos no dia seguinte à prova. A doutrinação que a nossa escola realmente faz é a de formar trabalhadores submissos. O que se aprende escola é a acordar cedo, cumprir horário, usar uniforme, ficar em silêncio, respeitar hierarquias e realizar tarefas inúteis sem questionar o seu sentido, obedecendo ao sistema e à autoridade. Além disso, não há investimento em salários, pessoal, capacitação, infraestrutura, nada. Enquanto a educação for assim, o conteúdo pode ser marxismo, catolicismo, astrologia, futebol, viking metal atmosférico ou qualquer outro, que os resultados serão os mesmos.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Melhores solos de guitarra (lista)

Muito legal essa matéria, embora obviamente seja impossível concordar com tudo em listas desse tipo. Seguindo os mesmos critérios (só bandas de metal, hard rock e grunge excluídos, nada de músicas instrumentais e um solo por banda), a minha lista pessoal seria:
1) Judas Priest "Painkiller"
2) Ozzy Osbourne "Mr. Crowley"
3) Iron Maiden "Wasted Years"
4) Metallica "Master of Puppets"
5) Megadeth "Hangar 18"
6) Death "Crystal Mountain"
7) Vital Remains "Dechristianize"
8) Machine Head "Halo"
9) Black Sabbath "Computer God"
10) Testament "The Legacy"
10 Menções honrosas, que violariam as regras, sem ordem definida:
Yngwie Malmsteen "Black Star"
Rainbow "A light in the black"
Deep Purple "Burn"
Kiss "Detroit Rock City"
Europe "Final Countdown"
Gary Moore "Still got the blues"
Led Zeppelin "Stairway to Heaven"
Pink Floyd "High Hopes"
Guns 'n' Roses "Sweet Child o Mine"
Jeff Healey "While My Guitar Gently Weeps"
Lá pelos começos dos anos 2000, o Psychotic Eyes ia tocar pela primeira vez em Osasco, junto com o Ancestor e outra banda que agora esqueci qual era. Ninguém na banda tinha carro, então fomos de trem, carregando os instrumentos. Chegando ao local, fomos muito mal recebidos pelo dono do bar, que só costumava realizar eventos com bandas cover. Já na hora do show, não havia ninguém na porta, ninguém tinha comprado ingresso. Ficamos na calçada esperando aparecer alguém, quando surge um típico headbanger trasher old school com um cinturão de balas com o logotipo do Sodom, que me pergunta:
- Vocês vão tocar alguma do Sodom?
- Não, mas vamos tocar Kreator!
- Kreator eu não gosto.
Vira as costas e vai embora.
Resultado: tocamos para os músicos das outras bandas. Nem o dono do bar assistiu nosso show. Lembrei dessa história graças ao Rodrigo Marques, que organizou a 1ª Feira Warlock do Disco de Vinil em Osasco, exatamente no mesmo lugar onde foi esse evento, agora transformado em estúdio pelos camaradas do Imminent Attack.
Estou começando a achar que projeto "escola sem partido" é uma boa. Antes que vcs me bloqueiem, pensem comigo. Eu estudei em colégio católico burguês a vida toda. Mas sou comunista e ateu. A doutrinação católica não surtiu qualquer efeito sobre mim. Pelo contrário, como era proibido falar de marxismo na escola, aquilo me encantava tanto quanto o heavy metal, que era proibido de tocar na rádio do grêmio. Imagino um professor de história dizendo "meus alunos, eu poderia falar agora da Revolução Cubana e do Che Guevara, mas a Lei me proíbe, então vou pedir pra vocês decorarem todos os sobrenomes do D. Pedro II". Nada mais eficiente para formar o pensamento crítico!! A escola de Frankfurt não entendia nada de psicologia adolescente reversa.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Fui marcado na lista dos quinze autores por 3 amigos diferentes! Fabiana Saboya R Dias, Leonardo Palhares e Andrey Zanetti. Aí vai a minha lista.
As regras: Não demorar muito para pensar sobre isso. Quinze autores que influenciaram você e que sempre ficarão com você. E marque depois 15 amigos, incluindo aquele que te convidou, para ver sua lista.
1) Isaac Asimov
2) Arthur C. Clarke
3) Robert Heinlein
4) Ray Bradbury
5) Orson Scott Card
6) Octavia Butler
7) Monteiro Lobato
8) Graciliano Ramos
9) Franz Kafka
10) Fiodor Dostoievsky
11) Oscar Wilde
12) Bertrand Russell
13) Friedrich Engels
14) Richard Feynman
15) J.R.R. Tolkien
Agora quero ver a lista da Isabela Fraga, Marcia Barbieri, Fernanda de Aragão, Luiz Carlos Giraçol Cichetto, Edgar Franco, Ana Martins Marques, Antonio Barreto, Marcel Briani, Adriano Villa, Marcos Ripp Cozzella, Marcella Melloni, Amanda Rebello, Maurício Dehò, Evals Mess, Cris Cerdera

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Algo que tem me incomodado muito é o discurso de alguns juristas repetindo, sem refletir, que "impeachment não é golpe porque está na constituição". É uma generalização rasteira e sem conteúdo. Ninguém disse que "todo impeachment é golpe", então a defesa de que "nenhum impeachment é golpe" é inadequada, primária e alheia à realidade das democracias. Pensem bem: alguém pode ser levado a júri sem ser acusado de crime contra a vida? Poderiam argumentar que o júri é soberano, o julgamento não é técnico (como no impeachment) e que cabe ao júri decidir se houve crime contra a vida. Não! Se a acusação nem ao menos em tese configura crime contra a vida, o acusado jamais pode ir a júri. Outro aspecto que nossos amigos juristas esquecem. Alguém pode ser julgado por um tribunal presidido por um inimigo de uma parte e amigo da outra? Óbvio que não. Então o que Eduardo Cunha está fazendo na presidência do processo, quando todo mundo sabe de seus sentimentos por Dilma e Temer? Isso não é golpe? Usam um rito previsto na lei, mas a acusação é genérica, não é levada a sério por ninguém (algum dos juízes ou acusadores trouxe algum argumento que permita a alguém acreditar que pedalada e decreto orçamentário é crime de responsabilidade?) e o processo é conduzido por criminosos que tem interesse na causa. O governo Dilma pode ser o pior de todos os tempos, mas ainda pior é jogar fora nossa democracia, essa jovem de vinte e poucos anos que demoramos séculos para construir. E, mais uma vez, pois em 64 não foi diferente, com juristas comprometidos em justificar o injustificável, ainda que em prejuízo da inteligência alheia e da própria credibilidade.
Quanta cultura há num X-Tudo? É a quintessência da nossa civilização.
A começar, a própria grafia, que substituiu uma palavra em inglês por uma letra que, dita em português (e somente na nossa língua), tem a mesma sonoridade.
Nele estão representados os três animais por nós escravizados para nos servirem de comida. O porco fornece o Bacon. Da galinha, o ovo duplamente presente, em estado puro e como ingrediente da fantástica reação química que leva o nome de maionese, em que é misturado ao óleo extraído da soja, motor da nossa economia, do desmatamento da Amazônia e principal ingrediente da pauta de exportações brasileira.
O hambúrguer, palavra que remete à cidade alemã, para designar o prato multicultural indevidamente apropriado pelos ianques. Nada mais é que a carne do boi moída, com a violência que nos é tão peculiar, e temperada com o sal extraído do oceano, ligação entre os continentes, aqui eternamente unidos entre si. Sem as grandes navegações jamais se encontrariam num mesmo sanduíche o europeu trigo para o pão e o americano tomate para a salada, formada por ingredientes “in natura”, usados sem muita transformação pela atividade humana, mostrando que a natureza ainda resiste à indústria. Se bem que há uma seleção artificial: dos melhores e mais vermelhos tomates e dos mais verdes e resistentes alfaces. A violação às leis de Darwin vem reforçada pela aplicação de pesticidas, hormônios, agrotóxicos e outros subprodutos nojentos e venenosos.
Por fim, o queijo surge soberano, uma mescla entre todos os reinos da natureza, em que o leite animal se vale da ação das bactérias e fungos para ungir a obra prima que consagrou Minas Gerais como a mais privilegiada das terras, paraíso dessa iguaria exportadora do simulacro de filósofo que escreveu toda esta bobagem.
(Inspiraram este texto um x-tudo comido no almoço, informação surpreendente, e as aulas do Prof. Alaôr Caffé Alves, no longínquo ano de 1995, em que citava o seu cachorro Bispo e uma colher como sínteses da civilização ocidental.)

terça-feira, 8 de março de 2016

Fico muito triste em imaginar que o Brian Johnson vai ter que se aposentar. Um dos melhores shows que vi na minha vida foi o do AC/DC em 1996, no Estádio do Pacaembu. Aproveito a oportunidade para listar aqueles vocalistas que eu adoraria ver subsituindo no AC/DC. Não me digam que ele é insubstituível, pq esse título ele mesmo provou que não existe, ao substituir o Bon Scott. Meus candidatos são:
1) Udo Dirkschneider (ex-Accept);
2) Bobby Blitz (Overkill);
3) David Wayne (ex-Metal Church);
4) Cláudio Galvan (não sabe quem é? Manda no Google!!)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Livros já lidos em 2016

"A crueldade masculina" José Angelo Gaiarsa
"Perdido em Marte" Andy Weir
"A Puta" Márcia Barbieri
"O homem que amava os cachorros" Leonardo Padura
"Sete Breves Lições de Física" Carlo Rovelli
"Architecture as metaphor" Kojin Karatani
"And then there were none" Agatha Christie
"A insustentável leveza do ser" Milan Kundera
"Eichmann em Jerusalém" Hannah Arendt
"A neblina do passado" Leonardo Padura
"Chicabum" Antonio Bivar
"Bom dia, tristeza" Françoise Sagan
"O mal-estar na civilização" Sigmund Freud
"Mixórdia de temáticas" Ricardo Araújo Pereira
"Quando o espiritual domina" Simone de Beauvoir
"Breve introdução à filosofia" Thomas Nagel
"A garota da banda" Kim Gordon
"Como mentir com estatísticas" Darrell Huff
"Submissão" Michel Hoellebecq
"Poesia completa vol. 1" Jorge de Lima






Só eu achei uma merda esse disco novo do Iron Maiden?
Sim, só você.
Donzela de ferro.
Margareth Tatcher
Aces High
Only the Good Die Young
Palheta do Steve Harris