sábado, 27 de janeiro de 2018

O QUE É “COMUNISMO”?
Curioso que outro dia mesmo eu queria postar algo do tipo “Vermelho é uma cor. Esquerda é uma direção. Comunismo é o modo de produção em que não existe propriedade privada dos meios de produção. Parem de confundir as coisas e usar essas palavras como ofensas”.
Sua pergunta me dá oportunidade de explicar melhor e colocar mais ideias.
A palavra “comunista” tem vários sentidos e vem sendo usada de variadas formas. Quando eu nasci, comunista era o aliado da União Soviética, inimigo dos Estados Unidos e do mundo capitalista. Depois da queda do muro de Berlim, na minha adolescência, o comunista passou a ser uma espécie rara, quase em extinção. Eu dizia que era comunista e as pessoas me olhavam de um jeito esquisito, curiosas. “Esse cara não sabe que o comunismo acabou?”. Alguns sequer escondiam a pena, me toleravam como se eu fosse uma espécie de maluco ou excêntrico.
Hoje em dia o termo ganhou ares de identificação. Parece que todo mundo é comunista. O pessoal de esquerda frequenta o bloco soviético. Os de direita usam a palavra como ofensa pra tudo o que não gostam. Para alguns, Cuba é comunista. Para outros, a Venezuela. Para uns mais enlouquecidos, até a Rede Globo e Michel Temer seriam comunistas. Curioso é que a China, potência econômica capitalista que hoje fabrica tudo o que a gente consome (lembrei do “socialista de iPhone”) é governada pela ditadura do Partido Comunista há décadas, mas ninguém a menciona quando querem falar de “comunismo”. Repare que eu também não usei a palavra “comunista” para caracterizar a China.
Pois, pra mim, nem Cuba nem China são comunistas.
Lá em cima eu defini “comunismo” como “sociedade em que não existe propriedade privada dos meios de produção”. Ou seja, pode ficar tranquilo. Se você não é proprietário de algum meio de produção (capital), o comunismo não vai te tirar nada. Nem eu gostaria nem quero dividir minhas guitarras com quem quer que seja!
Me apresento como “comunista” pois, grosso modo, concordo com o pensamento de Marx e de Lênin, os dois comunistas mais famosos e importantes da história. Assim, seria hipocrisia ou eufemismo eu tentar sabonetar e dizer que eu sou um “humanista socialista” ou coisa assim. Por outro lado, não considero que nenhum dos dois seja deus infalível ou que tudo o que escreveram estava certo. Pelo contrário, ambos são fruto de seu tempo e da situação de seus países na época, tinham uma visão limitada e restrita do mundo. Como estavam ambos engajados em lutas políticas importantes, emitiram muitos posicionamentos polêmicos, mas que só serviam para aquele momento, não para nós hoje.
O fato de eu concordar com eles também não me faz negar a importância de um monte de pensadores que vieram depois, muitos deles não comunistas e alguns até anti-comunistas: Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir, Angela Davis, Louis Althusser, Celso Furtado, Freud, Willelm Reich, Erich Fromm, Eric Hobsbawn, Chomsky, Axel Honneth, Marcuse, André Gorz, Bauman, Carl Sagan, Kojin Karatani,Thomas Pikkety. Cada um deles acrescentou aspectos, ideias e pensamentos interessantes, que Marx e Lênin nem tinham noção.
Mas, voltando ao comunismo.
Marx identificou, na história da humanidade, quatro modos de produção. Ele tinha essa preocupação: como as sociedades produzem as coisas que são necessárias à vida humana? De onde vêm a comida, as roupas, as casas? Esses quatro modos históricos são modelos, abstrações, que servem para pensar, não quer dizer que são sociedades reais. Na realidade o buraco é mais embaixo e as sociedades realmente existentes são muito mais complicadas e não encaixam perfeitamente em nenhum modelo.
Comunismo primitivo: não existe propriedade (nada é de ninguém) ou não existe propriedade privada (tudo é de todo mundo). É o modo de produção (ou de viver) dos índios brasileiros antes da chegada dos europeus. Todo mundo dorme na mesma oca, come a mesma comida etc. Note que o trabalho, nessa sociedade, é algo espontâneo, ninguém te obriga a trabalhar, senão um senso de cooperação e de que todos devem agir pelo bem comum.
Escravismo: Nesse modo de produção o trabalho é forçado. Tudo é produzido por trabalhadores que são obrigados, pela força, violência ou ameaça, a trabalharem em favor dos senhores. Marx pensava na escravidão antiga, Roma e Grécia, pois ele era alemão. Um brasileiro sempre vai pensar na escravidão negra. Mas no nosso regime as coisas eram muito complicadas, pois éramos uma parte escravista de um sistema econômico mundial incrivelmente complexo.
Feudalismo: aqui a propriedade é mais ou menos privada, não havia “venda” de terras no sentido moderno. Você nascia nobre ou nascia servo. O trabalho não é forçado mas não chega a ser livre. O trabalhador não tem liberdade de escolher quando ou para quem trabalha. É um sistema baseado na tradição, em que o servo trabalha porque sempre foi assim e porque precisa de proteção do senhor.
Capitalismo (ou modo de produção capitalista, pois a palavra “capitalismo” tem muitos significados também): na acepção marxista, é sociedade em que a propriedade é privada e o trabalho é livre. Quem não tem propriedades não tem como sobreviver, senão vendendo sua força de trabalho para quem é dono dos meios de produção. O proletário trabalha quando quer, para quem quer, mediante um contrato (claro que se não trabalhar passa fome, mas “juridicamente” ele é livre). O regime tem um aspecto interessante: as pessoas se tornam mercadoria. Elas vendem a si próprias. O preço dessa venda se chama “salário”. Assim como as relações de trabalho, todas as demais tendem, no capitalismo, a se tornarem mercadorias, ou a adotar a forma da relação social do mercado: compra e venda. Compra-se e vende-se tudo: terras, imóveis, marcas, ideias, serviços, sexo, amor, música... Essa sacada de Marx é das coisas que acho mais geniais em seu pensamento: mostrar o potencial que o capitalismo tem de transformar qualquer coisa em mercadoria. Mais atual, impossível.
Uma confusão comum que se faz é do capitalismo com economia de mercado. Todos os regimes econômicos funcionam com o mercado, em todos existe comércio. O que Marx estudou não é o modo de troca, mas o de produção, como as coisas e mercadorias são fabricadas, não se serão vendidas depois. No capitalismo o mercado é essencial para circulação das mercadorias, mas isso não quer dizer que não haja comércio nas outras formas de sociedade. As feiras medievais eram grandes eventos.
Marx entendia que o capitalismo seria superado, não porque ele não “gostava” do capitalismo, mas porque o regime tem contradições e falhas graves. Uma delas, mais visível, é a recorrência de crises econômicas de superprodução. Lembra de 2008? Outra é a desigualdade social crescente, que causa instabilidade política. As outras formas de sociedade são estáveis, não aumentam nem diminuem a desigualdade. O escravo ou servo vai ser fudido pelo resto da vida. Só no capitalismo existe a possibilidade e a ilusão de “ascensão social”. O sistema político então precisa agradar aos pobres. Mas não muito, pois quando os pobres tem mais do que o mínimo para sobreviver, tornam-se ameaça ao sistema político e à concentração de renda. Então o sistema político precisa criar mecanismos para sempre afastarem o povo do poder, por meio de golpes de estado. Lembra de 2016?
Para Marx, a luta de classes vai se acirrando a cada crise e a cada golpe, e um dia o proletariado vai tomar o poder definitivamente e instituir o socialismo. Esse é o modo de produção em que os meios de produção são dos trabalhadores. Para mim, isso nunca existiu na história. Nem na União Soviética, nem em Cuba, nem na China, muito menos na Venezuela.
Uma confusão também comum é do comunismo com defesa do estado forte. Nada mais falso. O estado como conhecemos é produto do capitalismo. Sua função é defender a propriedade privada e o regime. Apesar do discurso liberal de “estado mínimo”, nunca existiu capitalismo sem forte intervenção do Estado. Os EUA fazem até guerras para manter seus privilégios econômicos, seu PIB é 50% indústria bélica, em que o único comprador é o estado.
A finalidade do socialismo é destruir o capitalismo, e com ele o Estado, transformando a sociedade de modo que não mais exista exploração do trabalho humano. Em que o trabalho volte a ser em prol de todos, sem obrigação. Ninguém mais trabalharia por dever ou por necessidade, mas pelo instinto de cooperação.
Ou seja, voltaríamos ao comunismo. Não ao comunismo primitivo, típico das sociedades que ainda não desenvolveram tecnologia nem indústria. Mas um comunismo extremamente avançado, em que a produção é organizada para suprir as necessidades materiais das pessoas.
É o paraíso? Longe disso, o ser humano vai continuar sofrendo. Mas por outros motivos, não porque é explorado ou porque pode morrer de fome.
Nesse sentido eu sou comunista.
Não sou defensor do regime soviético. Acho qualquer ditadura abominável. O totalitarismo é pior que o capitalismo. Nesse sentido, é possível ser comunista e defensor da democracia. Um é regime econômico, o outro é político. Na verdade, eu acredito que a verdadeira realização da democracia é no socialismo. Se o povo deve governar o Estado, porque não pode governar a produção?
Como vai ser o comunismo? Sei lá. Marx também não sabia. Vai ter propriedade privada das coisas? Não faço ideia. Acho que uma sociedade organizada dessa forma tão diferente e revolucionária vai ter relações sociais, cultura e modo de vida também diferentes e revolucionários, que nos pareceriam absurdas, incompreensíveis e exóticas. Da mesma forma que a nossa sociedade moderna pareceria a um medieval. A maioria dos que pensaram sobre isso só podem chutar ou imaginar.
Uma boa descrição de uma sociedade comunista está no livro “Os despossuídos”, da Ursula K. Le Guin, escritora americana que, infelizmente, faleceu esta semana.
O que eu sei, e acredito, é que o capitalismo, embora seja a forma social mais avançada que a humanidade produziu, é injusto e insustentável. Está destruindo o planeta, o ser humano, causando sofrimento com a desigualdade social tendendo ao infinito, causando doenças mentais, exacerbando o individualismo, o consumismo e o egoísmo do “fodam-se os outros”. Transformar tudo em mercadoria apaga o valor de muita coisa. Pense no amor e na arte, o quanto perdem ao serem transformadas em produtos de uma relação de compra e venda. O capitalismo precisa ser substituído e superado. Precisamos de algo melhor, antes que esse sistema nos destrua.
Não sei se o substituto do capitalismo será o socialismo. Pode ser um retrocesso ao feudalismo. Aqui, cito outra autora americana de ficção científica:  Octavia Butler, que escreveu o livro “Parable of the Sower”, sem tradução em português, que alerta pra isso tudo. O colapso do meio ambiente, somado à violência urbana generalizada, dominada pelo crime organizado, fazem a sociedade regredir ao feudalismo. Em que se trabalha em troca de proteção.
O sucessor do capitalismo pode ser outra coisa também, que ninguém nunca imaginou, e não o socialismo. Mas até agora ninguém me convenceu disso. Marx fica cada vez mais atual, a cada crise econômica e a cada golpe de estado.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Em plena avenida Paulista, percebo a presença do Dhalsim do Street Fighter. Curioso, mas com algum receio pelos possíveis "yoga fire", observo se ele vai flutuar. Vejo que ele se aproxima. Imagino que vai me entregar o folheto com mensagens "hare krishna" que tem em mãos para distribuir aos transeuntes. Engano meu. O notório lutador indiano vê minha camiseta e comenta: "Paradise Lost, banda do caralho". É o metal proporcionando amizades instantâneas e aleatórias, ainda que com personagens mitológicos.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Tenho que confessar. Cometi um grave erro. Li comentários de Internet em posts de política. Graças a eles descobri que:
1) Lula é culpado pelos erros de ortografia. Antes dele não havia analfabetismo no Brasil.
2) Lula e Dilma são igualmente culpados pela baixa qualidade da educação e saúde públicas. Antes deles o sus deveria ser maravilhoso e a escola estadual (estadual?) aqui do lado melhor ainda.
3) antes dos "direitos humanos" não havia crimes. O mesmo vale para a "ideologia de gênero" responsável pelo surgimento do estupro, da pedofilia e do homossexualismo. Pouco importa que a declaração de direitos humanos seja de 1948 e que o antigo testamento esteja repleto de relatos de estupro, pedofilia e homossexualismo, alguns deles a mando de Deus.
4) tem alguma coisa sobre Venezuela, ditadura comunista e outras coisas, mas essa parte eu realmente não consegui entender. Até o Michel Temer, a Globo e o Fhc são comunistas, pelo jeito.
Acho que o muro de Berlim caiu pro lado errado e ninguém me avisou.