Em 2001 vivíamos o auge da primeira formação do Psychotic Eyes. Nossa
primeira demo, lançada no ano anterior, só havia recebido elogios de
toda a imprensa especializada. Éramos convidados para festivais e
havíamos dividido palcos com as melhores bandas do metal brasileiro da
época. Num dos nossos shows, tocamos um cover do Kreator acompanhados
por ninguém menos que o ex-guitarrista da própria banda, Frank Godzik.
Estávamos muito empolgados, e havíamos recebido um convite de uma
gravadora para gravarmos o nosso primeiro álbum, que seria lançado por
eles. Nos pediram uma demo com algumas faixas.
Havíamos bolado,
coletivamente, numa conversa entre os integrantes, uma história
conceitual maluca, que se passava no Brasil colonial, envolvendo
assassinatos, conspiração de seitas satânicas, rituais de possessão
baseados em telepatia e inteligência artificial. A criatividade dos
membros da banda me impressiona até hoje.
Entramos no estúdio para
registrar três faixas: "The Humachine", depois regravada no nosso
segundo álbum “I Only Smile Behind the Mask”, “Sold to Soul”, com aquele
que considero o melhor solo de guitarra da banda até hoje, executado
pelo Reinaldo Rodriguez, e “The Price”, com o melhor solo de guitarra
que eu havia gravado até então. Hoje tenho outros preferidos,
principalmente aqueles que gravei no segundo álbum, mas o dessa faixa
ainda me orgulha muito.
Durante as gravações surgiu uma pequena peça
instrumental, que inventei no estúdio, e a ideia de gravar um cover
para “Crystal Mountain”, do Death, que já tocávamos ao vivo. Chuck
Schuldiner havia morrido recentemente. Estávamos todos sentidos e
tristes, pois o Death era, junto com Slayer e Kreator, a maior das
nossas referências musicais naquele momento. Até alterei algumas partes
da letra para que elas soassem como homenagem.
Depois da gravação, aquela formação tão coesa se separou. Fui morar em Brasília e, quando voltei, eu e o Alexandre Dua Tamarossi (bateria) reformulamos a banda.
Nunca lançamos aquela demo. Até hoje.
A vida não cansa de nos surpreender. Depois que o Alexandre saiu da banda, ficamos somente eu e o Douglas Gatuso
(baixo), parados e procurando baterista. Nesses anos todos, surgiu a
ideia de gravar um álbum acústico, “Olhos Vermelhos”, agora em fase
final de produção. Achávamos que seria fácil.
Nada.
A gravação
do acústico foi dos desafios mais difíceis que já enfrentei como músico.
É quase impossível transpor a agressividade do death metal para o
formato de dois violões sem soar uma caricatura ou uma brincadeira. Além
disso, meu estilo de tocar guitarra é baseado em palhetadas fortes,
agressivas, muito movimento de dedos e distorção pesada. Essa maneira de
tocar, aplicada num violão acústico, com microfones em volta,
transforma tudo num caos. Qualquer barulho causado pela execução da
música, que seria inaudível numa gravação de guitarra, fica evidente no
formato acústico, pois é captado pelos microfones.
A mixagem foi
outra epopeia. Simplesmente estávamos fazendo algo inédito, para o qual
não há referências. Não tínhamos como saber o caminho, nem havíamos
construído uma imagem do resultado que queríamos. Por isso, foram
literalmente meses de tentativa e erro até chegarmos a um resultado
satisfatório.
Nesse meio tempo, a vida pessoal dos músicos e da
equipe do estúdio sofreu todo tipo de reviravoltas, dificuldades e
vários fatores nos impediam de ter uma agenda juntos. Como nenhum de nós
vive financeiramente da música, e muito menos do Psychotic Eyes,
tínhamos que priorizar as obrigações profissionais, familiares e
pessoais, o que atrasou ainda mais o processo de gravação e mixagem.
Mas a vida nos traz também surpresas. Reencontrei o ex-guitarrista
Reinaldo Rodriguez, hoje ator e dublador renomado, e conversamos com
nostalgia, lembrando o tempo da primeira formação da banda. Em comum,
temos o orgulho das composições que fizemos juntos, em especial aquelas
gravadas na ainda inédita segunda demo.
Com os atrasos da produção
do disco acústico, resolvi lançar esse material. As músicas ainda me
emocionam como naquela época. Quase vinte anos se passaram mas elas soam
vivas, renovação do metal brasileiro. Acho que aquele estilo de tocar
ninguém até então tinha explorado. Há elementos naquelas composições que
nem mesmo o Psychotic Eyes explorou depois, infelizmente.
Espero
que gostem de ouvir essas músicas. Em especial, nossa homenagem ao Chuck
é ainda mais importante hoje, neste mundo intolerante, em que o metal
perdeu espaço, em que a criatividade e a sensibilidade artística têm
cada vez menos espaço. Chuck faz mais falta hoje do que na época em que
gravamos a faixa. Lamento, entretanto, que sua importância como músico
jamais tenha sido devidamente reconhecida. Ainda que hoje ele seja muito
respeitado por quem conhece seu legado, sua música não teve sucessores,
não deixou influências, não é valorizada. O mundo perdeu o interesse
pela música de qualidade, pesada, que emocione, que tenha letras
provocativas que façam pensar, abraçando as sonoridades fáceis de letras
vazias. Depois dele, “não apareceu mais ninguém”. “Inside Crystal mountain, we’ll never forget your voice”
segunda-feira, 28 de maio de 2018
domingo, 27 de maio de 2018
Apenas 4 estados aumentaram o ICMS sobre os combustíveis recentemente. Minas Gerais aumentou a alíquota de 29% para 31%, um aumento de apenas 3%. Em janeiro deste ano.
O governo federal aumentou a CIDE. Em julho do ano passado.
Mas agora a grande imprensa (Globo, Folha e Estadão) quer convencer que a causa do aumento dos preços do combustível (nesta semana) é da carga tributária. Usam contas, tabelas e índices que fariam corar um primeiro anista de matemática, de tão elementares e falsas.
Isso não é coincidência. Tem-se denunciado a hipocrisia de se elogiar a política de preços baseada na desregulamentação e na ausência de intervenção, característica da administração da Petrobras no governo Dilma (o que rendeu até processos contra a presidente, acusada de "quebrar a empresa" mantendo os preços baixos).
O nome disso é canalhice. Mentem contra o povo, descaradamente.
A impressão que tenho é que o discurso "é culpa dos impostos" cola fácil, pois todo mundo acredita facilmente que qualquer preço alto é culpa dos impostos, pois poucos sabem medir a carga tributária e quase ninguém tem noção de como um preço é composto. A frase soa bonita e parece sempre verdadeira, do mesmo jeito que outras afirmações vazias como "o juiz roubou contra o meu time", "todo político é ladrão" ou "filme brasileiro é uma merda".
Além disso, me parece que a elite não aposta mais no discurso de "é culpa do PT". Embora isso seja em parte verdadeiro, pois o presente é sempre resultado do passado, tanto que posso culpar a escravidão pelo preconceito atual, esse discurso de ódio alienante é algo com data de validade, que evidencia a polarização política e, até certo ponto, força a uma reflexão, pois, "se é culpa do PT", porque era diferente na época do Lula?
Culpar os impostos é mais fácil, embora vergonhosamente falso. Lembram quando o preço do tomate subiu? Culparam os impostos, mas esqueceram de informar que tomate não paga imposto, como item essencial da cesta básica. Lembram o discurso de que automóveis eram caros por causa da carga tributária? Dêem uma olhada e vejam o percentual da tributação, comparado com o lucro da montadora nacional e com a remessa de lucros para a matriz no exterior.
Ainda que fosse verdadeiro, é justo financiar o transporte individual, reduzindo a tributação da gasolina, e com isso reduzir as receitas do estado para as demais atividades?
Nem é justo nem é possível: os estados e municípios estão quebrados e o governo federal está viciado em ajuste fiscal. Os que defendem essa mentira o fazem somente para combater aqueles que evidenciaram que "estado mínimo" é incompatível com justiça social. Se queremos desenvolvimento, é necessária intervenção do estado - e da sociedade - na economia. Sem isso seremos escravos do lucro, e só dele.
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