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segunda-feira, 2 de julho de 2018
segunda-feira, 28 de maio de 2018
Em 2001 vivíamos o auge da primeira formação do Psychotic Eyes. Nossa
primeira demo, lançada no ano anterior, só havia recebido elogios de
toda a imprensa especializada. Éramos convidados para festivais e
havíamos dividido palcos com as melhores bandas do metal brasileiro da
época. Num dos nossos shows, tocamos um cover do Kreator acompanhados
por ninguém menos que o ex-guitarrista da própria banda, Frank Godzik.
Estávamos muito empolgados, e havíamos recebido um convite de uma gravadora para gravarmos o nosso primeiro álbum, que seria lançado por eles. Nos pediram uma demo com algumas faixas.
Havíamos bolado, coletivamente, numa conversa entre os integrantes, uma história conceitual maluca, que se passava no Brasil colonial, envolvendo assassinatos, conspiração de seitas satânicas, rituais de possessão baseados em telepatia e inteligência artificial. A criatividade dos membros da banda me impressiona até hoje.
Entramos no estúdio para registrar três faixas: "The Humachine", depois regravada no nosso segundo álbum “I Only Smile Behind the Mask”, “Sold to Soul”, com aquele que considero o melhor solo de guitarra da banda até hoje, executado pelo Reinaldo Rodriguez, e “The Price”, com o melhor solo de guitarra que eu havia gravado até então. Hoje tenho outros preferidos, principalmente aqueles que gravei no segundo álbum, mas o dessa faixa ainda me orgulha muito.
Durante as gravações surgiu uma pequena peça instrumental, que inventei no estúdio, e a ideia de gravar um cover para “Crystal Mountain”, do Death, que já tocávamos ao vivo. Chuck Schuldiner havia morrido recentemente. Estávamos todos sentidos e tristes, pois o Death era, junto com Slayer e Kreator, a maior das nossas referências musicais naquele momento. Até alterei algumas partes da letra para que elas soassem como homenagem.
Depois da gravação, aquela formação tão coesa se separou. Fui morar em Brasília e, quando voltei, eu e o Alexandre Dua Tamarossi (bateria) reformulamos a banda.
Nunca lançamos aquela demo. Até hoje.
A vida não cansa de nos surpreender. Depois que o Alexandre saiu da banda, ficamos somente eu e o Douglas Gatuso (baixo), parados e procurando baterista. Nesses anos todos, surgiu a ideia de gravar um álbum acústico, “Olhos Vermelhos”, agora em fase final de produção. Achávamos que seria fácil.
Nada.
A gravação do acústico foi dos desafios mais difíceis que já enfrentei como músico. É quase impossível transpor a agressividade do death metal para o formato de dois violões sem soar uma caricatura ou uma brincadeira. Além disso, meu estilo de tocar guitarra é baseado em palhetadas fortes, agressivas, muito movimento de dedos e distorção pesada. Essa maneira de tocar, aplicada num violão acústico, com microfones em volta, transforma tudo num caos. Qualquer barulho causado pela execução da música, que seria inaudível numa gravação de guitarra, fica evidente no formato acústico, pois é captado pelos microfones.
A mixagem foi outra epopeia. Simplesmente estávamos fazendo algo inédito, para o qual não há referências. Não tínhamos como saber o caminho, nem havíamos construído uma imagem do resultado que queríamos. Por isso, foram literalmente meses de tentativa e erro até chegarmos a um resultado satisfatório.
Nesse meio tempo, a vida pessoal dos músicos e da equipe do estúdio sofreu todo tipo de reviravoltas, dificuldades e vários fatores nos impediam de ter uma agenda juntos. Como nenhum de nós vive financeiramente da música, e muito menos do Psychotic Eyes, tínhamos que priorizar as obrigações profissionais, familiares e pessoais, o que atrasou ainda mais o processo de gravação e mixagem.
Mas a vida nos traz também surpresas. Reencontrei o ex-guitarrista Reinaldo Rodriguez, hoje ator e dublador renomado, e conversamos com nostalgia, lembrando o tempo da primeira formação da banda. Em comum, temos o orgulho das composições que fizemos juntos, em especial aquelas gravadas na ainda inédita segunda demo.
Com os atrasos da produção do disco acústico, resolvi lançar esse material. As músicas ainda me emocionam como naquela época. Quase vinte anos se passaram mas elas soam vivas, renovação do metal brasileiro. Acho que aquele estilo de tocar ninguém até então tinha explorado. Há elementos naquelas composições que nem mesmo o Psychotic Eyes explorou depois, infelizmente.
Espero que gostem de ouvir essas músicas. Em especial, nossa homenagem ao Chuck é ainda mais importante hoje, neste mundo intolerante, em que o metal perdeu espaço, em que a criatividade e a sensibilidade artística têm cada vez menos espaço. Chuck faz mais falta hoje do que na época em que gravamos a faixa. Lamento, entretanto, que sua importância como músico jamais tenha sido devidamente reconhecida. Ainda que hoje ele seja muito respeitado por quem conhece seu legado, sua música não teve sucessores, não deixou influências, não é valorizada. O mundo perdeu o interesse pela música de qualidade, pesada, que emocione, que tenha letras provocativas que façam pensar, abraçando as sonoridades fáceis de letras vazias. Depois dele, “não apareceu mais ninguém”. “Inside Crystal mountain, we’ll never forget your voice”
Estávamos muito empolgados, e havíamos recebido um convite de uma gravadora para gravarmos o nosso primeiro álbum, que seria lançado por eles. Nos pediram uma demo com algumas faixas.
Havíamos bolado, coletivamente, numa conversa entre os integrantes, uma história conceitual maluca, que se passava no Brasil colonial, envolvendo assassinatos, conspiração de seitas satânicas, rituais de possessão baseados em telepatia e inteligência artificial. A criatividade dos membros da banda me impressiona até hoje.
Entramos no estúdio para registrar três faixas: "The Humachine", depois regravada no nosso segundo álbum “I Only Smile Behind the Mask”, “Sold to Soul”, com aquele que considero o melhor solo de guitarra da banda até hoje, executado pelo Reinaldo Rodriguez, e “The Price”, com o melhor solo de guitarra que eu havia gravado até então. Hoje tenho outros preferidos, principalmente aqueles que gravei no segundo álbum, mas o dessa faixa ainda me orgulha muito.
Durante as gravações surgiu uma pequena peça instrumental, que inventei no estúdio, e a ideia de gravar um cover para “Crystal Mountain”, do Death, que já tocávamos ao vivo. Chuck Schuldiner havia morrido recentemente. Estávamos todos sentidos e tristes, pois o Death era, junto com Slayer e Kreator, a maior das nossas referências musicais naquele momento. Até alterei algumas partes da letra para que elas soassem como homenagem.
Depois da gravação, aquela formação tão coesa se separou. Fui morar em Brasília e, quando voltei, eu e o Alexandre Dua Tamarossi (bateria) reformulamos a banda.
Nunca lançamos aquela demo. Até hoje.
A vida não cansa de nos surpreender. Depois que o Alexandre saiu da banda, ficamos somente eu e o Douglas Gatuso (baixo), parados e procurando baterista. Nesses anos todos, surgiu a ideia de gravar um álbum acústico, “Olhos Vermelhos”, agora em fase final de produção. Achávamos que seria fácil.
Nada.
A gravação do acústico foi dos desafios mais difíceis que já enfrentei como músico. É quase impossível transpor a agressividade do death metal para o formato de dois violões sem soar uma caricatura ou uma brincadeira. Além disso, meu estilo de tocar guitarra é baseado em palhetadas fortes, agressivas, muito movimento de dedos e distorção pesada. Essa maneira de tocar, aplicada num violão acústico, com microfones em volta, transforma tudo num caos. Qualquer barulho causado pela execução da música, que seria inaudível numa gravação de guitarra, fica evidente no formato acústico, pois é captado pelos microfones.
A mixagem foi outra epopeia. Simplesmente estávamos fazendo algo inédito, para o qual não há referências. Não tínhamos como saber o caminho, nem havíamos construído uma imagem do resultado que queríamos. Por isso, foram literalmente meses de tentativa e erro até chegarmos a um resultado satisfatório.
Nesse meio tempo, a vida pessoal dos músicos e da equipe do estúdio sofreu todo tipo de reviravoltas, dificuldades e vários fatores nos impediam de ter uma agenda juntos. Como nenhum de nós vive financeiramente da música, e muito menos do Psychotic Eyes, tínhamos que priorizar as obrigações profissionais, familiares e pessoais, o que atrasou ainda mais o processo de gravação e mixagem.
Mas a vida nos traz também surpresas. Reencontrei o ex-guitarrista Reinaldo Rodriguez, hoje ator e dublador renomado, e conversamos com nostalgia, lembrando o tempo da primeira formação da banda. Em comum, temos o orgulho das composições que fizemos juntos, em especial aquelas gravadas na ainda inédita segunda demo.
Com os atrasos da produção do disco acústico, resolvi lançar esse material. As músicas ainda me emocionam como naquela época. Quase vinte anos se passaram mas elas soam vivas, renovação do metal brasileiro. Acho que aquele estilo de tocar ninguém até então tinha explorado. Há elementos naquelas composições que nem mesmo o Psychotic Eyes explorou depois, infelizmente.
Espero que gostem de ouvir essas músicas. Em especial, nossa homenagem ao Chuck é ainda mais importante hoje, neste mundo intolerante, em que o metal perdeu espaço, em que a criatividade e a sensibilidade artística têm cada vez menos espaço. Chuck faz mais falta hoje do que na época em que gravamos a faixa. Lamento, entretanto, que sua importância como músico jamais tenha sido devidamente reconhecida. Ainda que hoje ele seja muito respeitado por quem conhece seu legado, sua música não teve sucessores, não deixou influências, não é valorizada. O mundo perdeu o interesse pela música de qualidade, pesada, que emocione, que tenha letras provocativas que façam pensar, abraçando as sonoridades fáceis de letras vazias. Depois dele, “não apareceu mais ninguém”. “Inside Crystal mountain, we’ll never forget your voice”
domingo, 27 de maio de 2018
Apenas 4 estados aumentaram o ICMS sobre os combustíveis recentemente. Minas Gerais aumentou a alíquota de 29% para 31%, um aumento de apenas 3%. Em janeiro deste ano.
O governo federal aumentou a CIDE. Em julho do ano passado.
Mas agora a grande imprensa (Globo, Folha e Estadão) quer convencer que a causa do aumento dos preços do combustível (nesta semana) é da carga tributária. Usam contas, tabelas e índices que fariam corar um primeiro anista de matemática, de tão elementares e falsas.
Isso não é coincidência. Tem-se denunciado a hipocrisia de se elogiar a política de preços baseada na desregulamentação e na ausência de intervenção, característica da administração da Petrobras no governo Dilma (o que rendeu até processos contra a presidente, acusada de "quebrar a empresa" mantendo os preços baixos).
O nome disso é canalhice. Mentem contra o povo, descaradamente.
A impressão que tenho é que o discurso "é culpa dos impostos" cola fácil, pois todo mundo acredita facilmente que qualquer preço alto é culpa dos impostos, pois poucos sabem medir a carga tributária e quase ninguém tem noção de como um preço é composto. A frase soa bonita e parece sempre verdadeira, do mesmo jeito que outras afirmações vazias como "o juiz roubou contra o meu time", "todo político é ladrão" ou "filme brasileiro é uma merda".
Além disso, me parece que a elite não aposta mais no discurso de "é culpa do PT". Embora isso seja em parte verdadeiro, pois o presente é sempre resultado do passado, tanto que posso culpar a escravidão pelo preconceito atual, esse discurso de ódio alienante é algo com data de validade, que evidencia a polarização política e, até certo ponto, força a uma reflexão, pois, "se é culpa do PT", porque era diferente na época do Lula?
Culpar os impostos é mais fácil, embora vergonhosamente falso. Lembram quando o preço do tomate subiu? Culparam os impostos, mas esqueceram de informar que tomate não paga imposto, como item essencial da cesta básica. Lembram o discurso de que automóveis eram caros por causa da carga tributária? Dêem uma olhada e vejam o percentual da tributação, comparado com o lucro da montadora nacional e com a remessa de lucros para a matriz no exterior.
Ainda que fosse verdadeiro, é justo financiar o transporte individual, reduzindo a tributação da gasolina, e com isso reduzir as receitas do estado para as demais atividades?
Nem é justo nem é possível: os estados e municípios estão quebrados e o governo federal está viciado em ajuste fiscal. Os que defendem essa mentira o fazem somente para combater aqueles que evidenciaram que "estado mínimo" é incompatível com justiça social. Se queremos desenvolvimento, é necessária intervenção do estado - e da sociedade - na economia. Sem isso seremos escravos do lucro, e só dele.
sexta-feira, 20 de abril de 2018
Filosofia para crianças
Há um tal "estudo" correndo por aí, assinado por um pesquisador do Ipea, dizendo que estudar filosofia no ensino médio prejudica o aprendizado de matemática. Primeiro, não é porque o sujeito é pesquisador do Ipea que é honesto. O cidadão em questão é apoiador do Bolsonaro e do "escola sem partido". Isso, claro, não invalida, por si só, o argumento. Mas demonstra a visão de mundo de quem quer desvalorizar as ciências humanas.
Escrevi o texto abaixo, em resposta ao comentário de uma professora de direito que levou o argumento a sério, entendendo que filosofia é algo complexo demais para ser ensinado no ensino médio, e que deveríamos focar em matemática, línguas e ciências. Bem na linha da reforma proposta pelo governo golpista.
"Tenho absoluta certeza que você não menospreza nossas queridas ciências humanas, a qualidade de seus estudos e artigos comprova a importância que você atribui à filosofia e à sociologia. Ocorre que a discussão é enviesada e, pelo menos para esses autores do citado artigo, falta muita honestidade intelectual. Não conheço nenhum país desenvolvido que não tenha Filosofia na grade. É um conhecimento absolutamente essencial para compreender o mundo e as outras disciplinas. Era conteúdo obrigatório no Brasil até a reforma da ditadura, que a subsittuiu por "educação moral e cívica", que nenhum hipócrita tinha coragem de dizer que prejudicava as notas em matemática. Filosofia é um modo tão básico de pensar que é acessível até às crianças, veja a coleção "Filosofinhos". Para adolescentes, há o best seller "O mundo de sofia". "O pequeno príncipe" é um livro de filosofia. Aliás, valorizam tanto a matemática, mas o jeito que ela é estudado no Brasil é um horror, destinado a formar trabalhadores disciplinados capaz de operar uma linha de montagem. Não há educação para raciocínio matemático, só repetição de longas listas de exercícios inúteis e desvinculados de problemas reais do mundo. Treina-se durante anos a fórmula de báskara, que não serve para absolutamente nada, enquanto não se sabe ler uma estatística ou calcular juros. Esse tipo de ensino defendido pelo "escola sem partido" visa formar trabalhadores alienados, não cidadãos pensantes, capazes de refletir sobre o mundo. Nem preciso citar nenhum autor "de esquerda", leia o americano liberal John Dewey, sobre a importância da educação não só para o trabalho, mas para a cidadania, com pensamento crítico. Um grande abraço e parabéns por fomentar a discussão".
segunda-feira, 19 de março de 2018
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Eu sempre achei que metal era música clássica tocada em instrumentos populares. Na verdade, ao ver esse vídeo, vejo que há uma barreira intransponível entre a música clássica/orquestrada, que usa um maestro para dar o tempo, e a música popular de origem africana, que usa percussão, como é o caso do rock/metal, jazz e pop. Talvez a grandiosidade do metal seja o uso da harmonia e contrapontos clássicos em instrumentos populares, o que exige muito mais do músico, pois a sincronia rítmica tem que ser mais acurada do que numa orquestra, e a variação harmônica e melódica mais complexa do que no usual da música popular. Tudo o que fazemos no metal contribui para exagerar o ataque das notas: distorção e palhetada na guitarra, baixo pulsante, bateria tocada sempre no extremo forte, com baquetas de ponta dura. O jazz vai pelo caminho contrário, suavizando o ataque: guitarras limpas tocadas com os dedos, baixo fretless, bateria com escovinha. É uma forma de usar instrumentos populares num contexto mais sofisticado. Novamente, o metal venceu!
(aguardando os haters que vão me xingar porque relacionei o metal à música africana).
https://www.youtube.com/watch?v=rEbUNDW9bDA
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
"A lógica que rege o mercado é que, com salários em aceleração, o consumo deve aquecer, levar ao aumento dos preços e, por consequência, dos juros - mecanismo usado pelos bancos centrais para controlar a inflação."
Socorro. Esse "mercado" não entende bosta nenhuma de economia? Não leram nem o Davi Ricardo pelo jeito. Achar que salário alto alimenta a inflação já era bobagem antes do Marc escrever "salário, preço e lucro", em que mostra, didaticamente, a falácia do raciocínio.
Aliás, nem precisa pensar muito. Basta ter vivido no Brasil, país de salários baixos e inflação alta.
O que me surpreende é que repetem isso e ainda ganham rios de dinheiro fazendo o povo pensar que isso faz algum sentido.
http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42964359
Socorro. Esse "mercado" não entende bosta nenhuma de economia? Não leram nem o Davi Ricardo pelo jeito. Achar que salário alto alimenta a inflação já era bobagem antes do Marc escrever "salário, preço e lucro", em que mostra, didaticamente, a falácia do raciocínio.
Aliás, nem precisa pensar muito. Basta ter vivido no Brasil, país de salários baixos e inflação alta.
O que me surpreende é que repetem isso e ainda ganham rios de dinheiro fazendo o povo pensar que isso faz algum sentido.
http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42964359
sábado, 27 de janeiro de 2018
O QUE É “COMUNISMO”?
Curioso que outro dia mesmo eu queria postar algo do tipo
“Vermelho é uma cor. Esquerda é uma direção. Comunismo é o modo de produção em
que não existe propriedade privada dos meios de produção. Parem de confundir as
coisas e usar essas palavras como ofensas”.
Sua pergunta me dá oportunidade de explicar melhor e
colocar mais ideias.
A palavra “comunista” tem vários sentidos e vem sendo
usada de variadas formas. Quando eu nasci, comunista era o aliado da União
Soviética, inimigo dos Estados Unidos e do mundo capitalista. Depois da queda
do muro de Berlim, na minha adolescência, o comunista passou a ser uma espécie
rara, quase em extinção. Eu dizia que era comunista e as pessoas me olhavam de
um jeito esquisito, curiosas. “Esse cara não sabe que o comunismo acabou?”.
Alguns sequer escondiam a pena, me toleravam como se eu fosse uma espécie de maluco
ou excêntrico.
Hoje em dia o termo ganhou ares de identificação. Parece
que todo mundo é comunista. O pessoal de esquerda frequenta o bloco soviético.
Os de direita usam a palavra como ofensa pra tudo o que não gostam. Para
alguns, Cuba é comunista. Para outros, a Venezuela. Para uns mais
enlouquecidos, até a Rede Globo e Michel Temer seriam comunistas. Curioso é que
a China, potência econômica capitalista que hoje fabrica tudo o que a gente
consome (lembrei do “socialista de iPhone”) é governada pela ditadura do
Partido Comunista há décadas, mas ninguém a menciona quando querem falar de
“comunismo”. Repare que eu também não usei a palavra “comunista” para
caracterizar a China.
Pois, pra mim, nem Cuba nem China são comunistas.
Lá em cima eu defini “comunismo” como “sociedade em que
não existe propriedade privada dos meios de produção”. Ou seja, pode ficar
tranquilo. Se você não é proprietário de algum meio de produção (capital), o
comunismo não vai te tirar nada. Nem eu gostaria nem quero dividir minhas
guitarras com quem quer que seja!
Me apresento como “comunista” pois, grosso modo, concordo
com o pensamento de Marx e de Lênin, os dois comunistas mais famosos e
importantes da história. Assim, seria hipocrisia ou eufemismo eu tentar
sabonetar e dizer que eu sou um “humanista socialista” ou coisa assim. Por
outro lado, não considero que nenhum dos dois seja deus infalível ou que tudo o
que escreveram estava certo. Pelo contrário, ambos são fruto de seu tempo e da
situação de seus países na época, tinham uma visão limitada e restrita do mundo.
Como estavam ambos engajados em lutas políticas importantes, emitiram muitos posicionamentos
polêmicos, mas que só serviam para aquele momento, não para nós hoje.
O fato de eu concordar com eles também não me faz negar a
importância de um monte de pensadores que vieram depois, muitos deles não
comunistas e alguns até anti-comunistas: Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Simone
de Beauvoir, Angela Davis, Louis Althusser, Celso Furtado, Freud, Willelm
Reich, Erich Fromm, Eric Hobsbawn, Chomsky, Axel Honneth, Marcuse, André Gorz,
Bauman, Carl Sagan, Kojin Karatani,Thomas Pikkety. Cada um deles acrescentou
aspectos, ideias e pensamentos interessantes, que Marx e Lênin nem tinham
noção.
Mas, voltando ao comunismo.
Marx identificou, na história da humanidade, quatro modos
de produção. Ele tinha essa preocupação: como as sociedades produzem as coisas
que são necessárias à vida humana? De onde vêm a comida, as roupas, as casas? Esses
quatro modos históricos são modelos, abstrações, que servem para pensar, não
quer dizer que são sociedades reais. Na realidade o buraco é mais embaixo e as sociedades
realmente existentes são muito mais complicadas e não encaixam perfeitamente em
nenhum modelo.
Comunismo
primitivo: não existe propriedade (nada é de ninguém) ou não
existe propriedade privada (tudo é de todo mundo). É o modo de produção (ou de
viver) dos índios brasileiros antes da chegada dos europeus. Todo mundo dorme
na mesma oca, come a mesma comida etc. Note que o trabalho, nessa sociedade, é
algo espontâneo, ninguém te obriga a trabalhar, senão um senso de cooperação e
de que todos devem agir pelo bem comum.
Escravismo:
Nesse modo de produção o trabalho é forçado. Tudo é produzido por trabalhadores
que são obrigados, pela força, violência ou ameaça, a trabalharem em favor dos
senhores. Marx pensava na escravidão antiga, Roma e Grécia, pois ele era
alemão. Um brasileiro sempre vai pensar na escravidão negra. Mas no nosso
regime as coisas eram muito complicadas, pois éramos uma parte escravista de um
sistema econômico mundial incrivelmente complexo.
Feudalismo:
aqui a propriedade é mais ou menos privada, não havia “venda” de terras no
sentido moderno. Você nascia nobre ou nascia servo. O trabalho não é forçado
mas não chega a ser livre. O trabalhador não tem liberdade de escolher quando
ou para quem trabalha. É um sistema baseado na tradição, em que o servo trabalha
porque sempre foi assim e porque precisa de proteção do senhor.
Capitalismo (ou
modo de produção capitalista, pois a palavra “capitalismo” tem muitos
significados também): na acepção marxista, é sociedade em que a propriedade é
privada e o trabalho é livre. Quem não tem propriedades não tem como sobreviver,
senão vendendo sua força de trabalho para quem é dono dos meios de produção. O
proletário trabalha quando quer, para quem quer, mediante um contrato (claro
que se não trabalhar passa fome, mas “juridicamente” ele é livre). O regime tem
um aspecto interessante: as pessoas se tornam mercadoria. Elas vendem a si
próprias. O preço dessa venda se chama “salário”. Assim como as relações de
trabalho, todas as demais tendem, no capitalismo, a se tornarem mercadorias, ou
a adotar a forma da relação social do mercado: compra e venda. Compra-se e
vende-se tudo: terras, imóveis, marcas, ideias, serviços, sexo, amor, música...
Essa sacada de Marx é das coisas que acho mais geniais em seu pensamento:
mostrar o potencial que o capitalismo tem de transformar qualquer coisa em
mercadoria. Mais atual, impossível.
Uma confusão comum que se faz é do capitalismo com
economia de mercado. Todos os regimes econômicos funcionam com o mercado, em
todos existe comércio. O que Marx estudou não é o modo de troca, mas o de produção,
como as coisas e mercadorias são fabricadas, não se serão vendidas depois. No
capitalismo o mercado é essencial para circulação das mercadorias, mas isso não
quer dizer que não haja comércio nas outras formas de sociedade. As feiras
medievais eram grandes eventos.
Marx entendia que o capitalismo seria superado, não
porque ele não “gostava” do capitalismo, mas porque o regime tem contradições e
falhas graves. Uma delas, mais visível, é a recorrência de crises econômicas de
superprodução. Lembra de 2008? Outra é a desigualdade social crescente, que
causa instabilidade política. As outras formas de sociedade são estáveis, não
aumentam nem diminuem a desigualdade. O escravo ou servo vai ser fudido pelo
resto da vida. Só no capitalismo existe a possibilidade e a ilusão de “ascensão
social”. O sistema político então precisa agradar aos pobres. Mas não muito,
pois quando os pobres tem mais do que o mínimo para sobreviver, tornam-se
ameaça ao sistema político e à concentração de renda. Então o sistema político
precisa criar mecanismos para sempre afastarem o povo do poder, por meio de
golpes de estado. Lembra de 2016?
Para Marx, a luta de classes vai se acirrando a cada
crise e a cada golpe, e um dia o proletariado vai tomar o poder definitivamente
e instituir o socialismo. Esse é o modo de produção em que os meios de produção
são dos trabalhadores. Para mim, isso nunca existiu na história. Nem na União
Soviética, nem em Cuba, nem na China, muito menos na Venezuela.
Uma confusão também comum é do comunismo com defesa do
estado forte. Nada mais falso. O estado como conhecemos é produto do
capitalismo. Sua função é defender a propriedade privada e o regime. Apesar do
discurso liberal de “estado mínimo”, nunca existiu capitalismo sem forte
intervenção do Estado. Os EUA fazem até guerras para manter seus privilégios
econômicos, seu PIB é 50% indústria bélica, em que o único comprador é o
estado.
A finalidade do socialismo é destruir o capitalismo, e
com ele o Estado, transformando a sociedade de modo que não mais exista
exploração do trabalho humano. Em que o trabalho volte a ser em prol de todos,
sem obrigação. Ninguém mais trabalharia por dever ou por necessidade, mas pelo
instinto de cooperação.
Ou seja, voltaríamos ao comunismo. Não ao comunismo
primitivo, típico das sociedades que ainda não desenvolveram tecnologia nem
indústria. Mas um comunismo extremamente avançado, em que a produção é
organizada para suprir as necessidades materiais das pessoas.
É o paraíso? Longe disso, o ser humano vai continuar
sofrendo. Mas por outros motivos, não porque é explorado ou porque pode morrer
de fome.
Nesse sentido eu sou comunista.
Não sou defensor do regime soviético. Acho qualquer
ditadura abominável. O totalitarismo é pior que o capitalismo. Nesse sentido, é
possível ser comunista e defensor da democracia. Um é regime econômico, o outro
é político. Na verdade, eu acredito que a verdadeira realização da democracia é
no socialismo. Se o povo deve governar o Estado, porque não pode governar a
produção?
Como vai ser o comunismo? Sei lá. Marx também não sabia. Vai
ter propriedade privada das coisas? Não faço ideia. Acho que uma sociedade
organizada dessa forma tão diferente e revolucionária vai ter relações sociais,
cultura e modo de vida também diferentes e revolucionários, que nos pareceriam
absurdas, incompreensíveis e exóticas. Da mesma forma que a nossa sociedade
moderna pareceria a um medieval. A maioria dos que pensaram sobre isso só podem
chutar ou imaginar.
Uma boa descrição de uma sociedade comunista está no
livro “Os despossuídos”, da Ursula K. Le Guin, escritora americana que,
infelizmente, faleceu esta semana.
O que eu sei, e acredito, é que o capitalismo, embora
seja a forma social mais avançada que a humanidade produziu, é injusto e
insustentável. Está destruindo o planeta, o ser humano, causando sofrimento com
a desigualdade social tendendo ao infinito, causando doenças mentais, exacerbando
o individualismo, o consumismo e o egoísmo do “fodam-se os outros”. Transformar
tudo em mercadoria apaga o valor de muita coisa. Pense no amor e na arte, o
quanto perdem ao serem transformadas em produtos de uma relação de compra e
venda. O capitalismo precisa ser substituído e superado. Precisamos de algo
melhor, antes que esse sistema nos destrua.
Não sei se o substituto do capitalismo será o socialismo.
Pode ser um retrocesso ao feudalismo. Aqui, cito outra autora americana de
ficção científica: Octavia Butler, que
escreveu o livro “Parable of the Sower”, sem tradução em português, que alerta
pra isso tudo. O colapso do meio ambiente, somado à violência urbana
generalizada, dominada pelo crime organizado, fazem a sociedade regredir ao
feudalismo. Em que se trabalha em troca de proteção.
O sucessor do capitalismo pode ser outra coisa também,
que ninguém nunca imaginou, e não o socialismo. Mas até agora ninguém me
convenceu disso. Marx fica cada vez mais atual, a cada crise econômica e a cada
golpe de estado.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Em plena avenida Paulista, percebo a presença do Dhalsim do Street Fighter. Curioso, mas com algum receio pelos possíveis "yoga fire", observo se ele vai flutuar. Vejo que ele se aproxima. Imagino que vai me entregar o folheto com mensagens "hare krishna" que tem em mãos para distribuir aos transeuntes. Engano meu. O notório lutador indiano vê minha camiseta e comenta: "Paradise Lost, banda do caralho". É o metal proporcionando amizades instantâneas e aleatórias, ainda que com personagens mitológicos.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
Tenho que confessar. Cometi um grave erro. Li comentários de Internet em posts de política. Graças a eles descobri que:
1) Lula é culpado pelos erros de ortografia. Antes dele não havia analfabetismo no Brasil.
2) Lula e Dilma são igualmente culpados pela baixa qualidade da educação e saúde públicas. Antes deles o sus deveria ser maravilhoso e a escola estadual (estadual?) aqui do lado melhor ainda.
3) antes dos "direitos humanos" não havia crimes. O mesmo vale para a "ideologia de gênero" responsável pelo surgimento do estupro, da pedofilia e do homossexualismo. Pouco importa que a declaração de direitos humanos seja de 1948 e que o antigo testamento esteja repleto de relatos de estupro, pedofilia e homossexualismo, alguns deles a mando de Deus.
4) tem alguma coisa sobre Venezuela, ditadura comunista e outras coisas, mas essa parte eu realmente não consegui entender. Até o Michel Temer, a Globo e o Fhc são comunistas, pelo jeito.
Acho que o muro de Berlim caiu pro lado errado e ninguém me avisou.
1) Lula é culpado pelos erros de ortografia. Antes dele não havia analfabetismo no Brasil.
2) Lula e Dilma são igualmente culpados pela baixa qualidade da educação e saúde públicas. Antes deles o sus deveria ser maravilhoso e a escola estadual (estadual?) aqui do lado melhor ainda.
3) antes dos "direitos humanos" não havia crimes. O mesmo vale para a "ideologia de gênero" responsável pelo surgimento do estupro, da pedofilia e do homossexualismo. Pouco importa que a declaração de direitos humanos seja de 1948 e que o antigo testamento esteja repleto de relatos de estupro, pedofilia e homossexualismo, alguns deles a mando de Deus.
4) tem alguma coisa sobre Venezuela, ditadura comunista e outras coisas, mas essa parte eu realmente não consegui entender. Até o Michel Temer, a Globo e o Fhc são comunistas, pelo jeito.
Acho que o muro de Berlim caiu pro lado errado e ninguém me avisou.
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