O QUE É “COMUNISMO”?
Curioso que outro dia mesmo eu queria postar algo do tipo
“Vermelho é uma cor. Esquerda é uma direção. Comunismo é o modo de produção em
que não existe propriedade privada dos meios de produção. Parem de confundir as
coisas e usar essas palavras como ofensas”.
Sua pergunta me dá oportunidade de explicar melhor e
colocar mais ideias.
A palavra “comunista” tem vários sentidos e vem sendo
usada de variadas formas. Quando eu nasci, comunista era o aliado da União
Soviética, inimigo dos Estados Unidos e do mundo capitalista. Depois da queda
do muro de Berlim, na minha adolescência, o comunista passou a ser uma espécie
rara, quase em extinção. Eu dizia que era comunista e as pessoas me olhavam de
um jeito esquisito, curiosas. “Esse cara não sabe que o comunismo acabou?”.
Alguns sequer escondiam a pena, me toleravam como se eu fosse uma espécie de maluco
ou excêntrico.
Hoje em dia o termo ganhou ares de identificação. Parece
que todo mundo é comunista. O pessoal de esquerda frequenta o bloco soviético.
Os de direita usam a palavra como ofensa pra tudo o que não gostam. Para
alguns, Cuba é comunista. Para outros, a Venezuela. Para uns mais
enlouquecidos, até a Rede Globo e Michel Temer seriam comunistas. Curioso é que
a China, potência econômica capitalista que hoje fabrica tudo o que a gente
consome (lembrei do “socialista de iPhone”) é governada pela ditadura do
Partido Comunista há décadas, mas ninguém a menciona quando querem falar de
“comunismo”. Repare que eu também não usei a palavra “comunista” para
caracterizar a China.
Pois, pra mim, nem Cuba nem China são comunistas.
Lá em cima eu defini “comunismo” como “sociedade em que
não existe propriedade privada dos meios de produção”. Ou seja, pode ficar
tranquilo. Se você não é proprietário de algum meio de produção (capital), o
comunismo não vai te tirar nada. Nem eu gostaria nem quero dividir minhas
guitarras com quem quer que seja!
Me apresento como “comunista” pois, grosso modo, concordo
com o pensamento de Marx e de Lênin, os dois comunistas mais famosos e
importantes da história. Assim, seria hipocrisia ou eufemismo eu tentar
sabonetar e dizer que eu sou um “humanista socialista” ou coisa assim. Por
outro lado, não considero que nenhum dos dois seja deus infalível ou que tudo o
que escreveram estava certo. Pelo contrário, ambos são fruto de seu tempo e da
situação de seus países na época, tinham uma visão limitada e restrita do mundo.
Como estavam ambos engajados em lutas políticas importantes, emitiram muitos posicionamentos
polêmicos, mas que só serviam para aquele momento, não para nós hoje.
O fato de eu concordar com eles também não me faz negar a
importância de um monte de pensadores que vieram depois, muitos deles não
comunistas e alguns até anti-comunistas: Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Simone
de Beauvoir, Angela Davis, Louis Althusser, Celso Furtado, Freud, Willelm
Reich, Erich Fromm, Eric Hobsbawn, Chomsky, Axel Honneth, Marcuse, André Gorz,
Bauman, Carl Sagan, Kojin Karatani,Thomas Pikkety. Cada um deles acrescentou
aspectos, ideias e pensamentos interessantes, que Marx e Lênin nem tinham
noção.
Mas, voltando ao comunismo.
Marx identificou, na história da humanidade, quatro modos
de produção. Ele tinha essa preocupação: como as sociedades produzem as coisas
que são necessárias à vida humana? De onde vêm a comida, as roupas, as casas? Esses
quatro modos históricos são modelos, abstrações, que servem para pensar, não
quer dizer que são sociedades reais. Na realidade o buraco é mais embaixo e as sociedades
realmente existentes são muito mais complicadas e não encaixam perfeitamente em
nenhum modelo.
Comunismo
primitivo: não existe propriedade (nada é de ninguém) ou não
existe propriedade privada (tudo é de todo mundo). É o modo de produção (ou de
viver) dos índios brasileiros antes da chegada dos europeus. Todo mundo dorme
na mesma oca, come a mesma comida etc. Note que o trabalho, nessa sociedade, é
algo espontâneo, ninguém te obriga a trabalhar, senão um senso de cooperação e
de que todos devem agir pelo bem comum.
Escravismo:
Nesse modo de produção o trabalho é forçado. Tudo é produzido por trabalhadores
que são obrigados, pela força, violência ou ameaça, a trabalharem em favor dos
senhores. Marx pensava na escravidão antiga, Roma e Grécia, pois ele era
alemão. Um brasileiro sempre vai pensar na escravidão negra. Mas no nosso
regime as coisas eram muito complicadas, pois éramos uma parte escravista de um
sistema econômico mundial incrivelmente complexo.
Feudalismo:
aqui a propriedade é mais ou menos privada, não havia “venda” de terras no
sentido moderno. Você nascia nobre ou nascia servo. O trabalho não é forçado
mas não chega a ser livre. O trabalhador não tem liberdade de escolher quando
ou para quem trabalha. É um sistema baseado na tradição, em que o servo trabalha
porque sempre foi assim e porque precisa de proteção do senhor.
Capitalismo (ou
modo de produção capitalista, pois a palavra “capitalismo” tem muitos
significados também): na acepção marxista, é sociedade em que a propriedade é
privada e o trabalho é livre. Quem não tem propriedades não tem como sobreviver,
senão vendendo sua força de trabalho para quem é dono dos meios de produção. O
proletário trabalha quando quer, para quem quer, mediante um contrato (claro
que se não trabalhar passa fome, mas “juridicamente” ele é livre). O regime tem
um aspecto interessante: as pessoas se tornam mercadoria. Elas vendem a si
próprias. O preço dessa venda se chama “salário”. Assim como as relações de
trabalho, todas as demais tendem, no capitalismo, a se tornarem mercadorias, ou
a adotar a forma da relação social do mercado: compra e venda. Compra-se e
vende-se tudo: terras, imóveis, marcas, ideias, serviços, sexo, amor, música...
Essa sacada de Marx é das coisas que acho mais geniais em seu pensamento:
mostrar o potencial que o capitalismo tem de transformar qualquer coisa em
mercadoria. Mais atual, impossível.
Uma confusão comum que se faz é do capitalismo com
economia de mercado. Todos os regimes econômicos funcionam com o mercado, em
todos existe comércio. O que Marx estudou não é o modo de troca, mas o de produção,
como as coisas e mercadorias são fabricadas, não se serão vendidas depois. No
capitalismo o mercado é essencial para circulação das mercadorias, mas isso não
quer dizer que não haja comércio nas outras formas de sociedade. As feiras
medievais eram grandes eventos.
Marx entendia que o capitalismo seria superado, não
porque ele não “gostava” do capitalismo, mas porque o regime tem contradições e
falhas graves. Uma delas, mais visível, é a recorrência de crises econômicas de
superprodução. Lembra de 2008? Outra é a desigualdade social crescente, que
causa instabilidade política. As outras formas de sociedade são estáveis, não
aumentam nem diminuem a desigualdade. O escravo ou servo vai ser fudido pelo
resto da vida. Só no capitalismo existe a possibilidade e a ilusão de “ascensão
social”. O sistema político então precisa agradar aos pobres. Mas não muito,
pois quando os pobres tem mais do que o mínimo para sobreviver, tornam-se
ameaça ao sistema político e à concentração de renda. Então o sistema político
precisa criar mecanismos para sempre afastarem o povo do poder, por meio de
golpes de estado. Lembra de 2016?
Para Marx, a luta de classes vai se acirrando a cada
crise e a cada golpe, e um dia o proletariado vai tomar o poder definitivamente
e instituir o socialismo. Esse é o modo de produção em que os meios de produção
são dos trabalhadores. Para mim, isso nunca existiu na história. Nem na União
Soviética, nem em Cuba, nem na China, muito menos na Venezuela.
Uma confusão também comum é do comunismo com defesa do
estado forte. Nada mais falso. O estado como conhecemos é produto do
capitalismo. Sua função é defender a propriedade privada e o regime. Apesar do
discurso liberal de “estado mínimo”, nunca existiu capitalismo sem forte
intervenção do Estado. Os EUA fazem até guerras para manter seus privilégios
econômicos, seu PIB é 50% indústria bélica, em que o único comprador é o
estado.
A finalidade do socialismo é destruir o capitalismo, e
com ele o Estado, transformando a sociedade de modo que não mais exista
exploração do trabalho humano. Em que o trabalho volte a ser em prol de todos,
sem obrigação. Ninguém mais trabalharia por dever ou por necessidade, mas pelo
instinto de cooperação.
Ou seja, voltaríamos ao comunismo. Não ao comunismo
primitivo, típico das sociedades que ainda não desenvolveram tecnologia nem
indústria. Mas um comunismo extremamente avançado, em que a produção é
organizada para suprir as necessidades materiais das pessoas.
É o paraíso? Longe disso, o ser humano vai continuar
sofrendo. Mas por outros motivos, não porque é explorado ou porque pode morrer
de fome.
Nesse sentido eu sou comunista.
Não sou defensor do regime soviético. Acho qualquer
ditadura abominável. O totalitarismo é pior que o capitalismo. Nesse sentido, é
possível ser comunista e defensor da democracia. Um é regime econômico, o outro
é político. Na verdade, eu acredito que a verdadeira realização da democracia é
no socialismo. Se o povo deve governar o Estado, porque não pode governar a
produção?
Como vai ser o comunismo? Sei lá. Marx também não sabia. Vai
ter propriedade privada das coisas? Não faço ideia. Acho que uma sociedade
organizada dessa forma tão diferente e revolucionária vai ter relações sociais,
cultura e modo de vida também diferentes e revolucionários, que nos pareceriam
absurdas, incompreensíveis e exóticas. Da mesma forma que a nossa sociedade
moderna pareceria a um medieval. A maioria dos que pensaram sobre isso só podem
chutar ou imaginar.
Uma boa descrição de uma sociedade comunista está no
livro “Os despossuídos”, da Ursula K. Le Guin, escritora americana que,
infelizmente, faleceu esta semana.
O que eu sei, e acredito, é que o capitalismo, embora
seja a forma social mais avançada que a humanidade produziu, é injusto e
insustentável. Está destruindo o planeta, o ser humano, causando sofrimento com
a desigualdade social tendendo ao infinito, causando doenças mentais, exacerbando
o individualismo, o consumismo e o egoísmo do “fodam-se os outros”. Transformar
tudo em mercadoria apaga o valor de muita coisa. Pense no amor e na arte, o
quanto perdem ao serem transformadas em produtos de uma relação de compra e
venda. O capitalismo precisa ser substituído e superado. Precisamos de algo
melhor, antes que esse sistema nos destrua.
Não sei se o substituto do capitalismo será o socialismo.
Pode ser um retrocesso ao feudalismo. Aqui, cito outra autora americana de
ficção científica: Octavia Butler, que
escreveu o livro “Parable of the Sower”, sem tradução em português, que alerta
pra isso tudo. O colapso do meio ambiente, somado à violência urbana
generalizada, dominada pelo crime organizado, fazem a sociedade regredir ao
feudalismo. Em que se trabalha em troca de proteção.
O sucessor do capitalismo pode ser outra coisa também,
que ninguém nunca imaginou, e não o socialismo. Mas até agora ninguém me
convenceu disso. Marx fica cada vez mais atual, a cada crise econômica e a cada
golpe de estado.
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