Quanta cultura há num X-Tudo? É a quintessência da nossa civilização.
A começar, a própria grafia, que substituiu uma palavra em inglês por uma letra que, dita em português (e somente na nossa língua), tem a mesma sonoridade.
Nele estão representados os três animais por nós escravizados para nos servirem de comida. O porco fornece o Bacon. Da galinha, o ovo duplamente presente, em estado puro e como ingrediente da fantástica reação química que leva o nome de maionese, em que é misturado ao óleo extraído da soja, motor da nossa economia, do desmatamento da Amazônia e principal ingrediente da pauta de exportações brasileira.
O hambúrguer, palavra que remete à cidade alemã, para designar o prato multicultural indevidamente apropriado pelos ianques. Nada mais é que a carne do boi moída, com a violência que nos é tão peculiar, e temperada com o sal extraído do oceano, ligação entre os continentes, aqui eternamente unidos entre si. Sem as grandes navegações jamais se encontrariam num mesmo sanduíche o europeu trigo para o pão e o americano tomate para a salada, formada por ingredientes “in natura”, usados sem muita transformação pela atividade humana, mostrando que a natureza ainda resiste à indústria. Se bem que há uma seleção artificial: dos melhores e mais vermelhos tomates e dos mais verdes e resistentes alfaces. A violação às leis de Darwin vem reforçada pela aplicação de pesticidas, hormônios, agrotóxicos e outros subprodutos nojentos e venenosos.
Por fim, o queijo surge soberano, uma mescla entre todos os reinos da natureza, em que o leite animal se vale da ação das bactérias e fungos para ungir a obra prima que consagrou Minas Gerais como a mais privilegiada das terras, paraíso dessa iguaria exportadora do simulacro de filósofo que escreveu toda esta bobagem.
(Inspiraram este texto um x-tudo comido no almoço, informação surpreendente, e as aulas do Prof. Alaôr Caffé Alves, no longínquo ano de 1995, em que citava o seu cachorro Bispo e uma colher como sínteses da civilização ocidental.)
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