sexta-feira, 13 de maio de 2016

Algo que tem me incomodado muito é o discurso de alguns juristas repetindo, sem refletir, que "impeachment não é golpe porque está na constituição". É uma generalização rasteira e sem conteúdo. Ninguém disse que "todo impeachment é golpe", então a defesa de que "nenhum impeachment é golpe" é inadequada, primária e alheia à realidade das democracias. Pensem bem: alguém pode ser levado a júri sem ser acusado de crime contra a vida? Poderiam argumentar que o júri é soberano, o julgamento não é técnico (como no impeachment) e que cabe ao júri decidir se houve crime contra a vida. Não! Se a acusação nem ao menos em tese configura crime contra a vida, o acusado jamais pode ir a júri. Outro aspecto que nossos amigos juristas esquecem. Alguém pode ser julgado por um tribunal presidido por um inimigo de uma parte e amigo da outra? Óbvio que não. Então o que Eduardo Cunha está fazendo na presidência do processo, quando todo mundo sabe de seus sentimentos por Dilma e Temer? Isso não é golpe? Usam um rito previsto na lei, mas a acusação é genérica, não é levada a sério por ninguém (algum dos juízes ou acusadores trouxe algum argumento que permita a alguém acreditar que pedalada e decreto orçamentário é crime de responsabilidade?) e o processo é conduzido por criminosos que tem interesse na causa. O governo Dilma pode ser o pior de todos os tempos, mas ainda pior é jogar fora nossa democracia, essa jovem de vinte e poucos anos que demoramos séculos para construir. E, mais uma vez, pois em 64 não foi diferente, com juristas comprometidos em justificar o injustificável, ainda que em prejuízo da inteligência alheia e da própria credibilidade.

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